segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ótimo texto do sócio Buric - " Memórias Póstumas de um turnaround ainda vivo"

Memórias póstumas de um turnaround ainda vivo




Inepar era uma Blue Chip, tal como Vale ou Petrobras. E se comportava como tal, queria abraçar de Telecom ao setor elétrico, passando pela engenharia que fazia antes. Obviamente um projeto como o Iridium só podia ser eles que fariam, deixariam alguém mais fazer? Todo esse foco em tudo, ou melhor ausência do mesmo, fez com que Inepar não conseguisse mais gerenciar seu negócio propriamente. O fracasso vergonhoso do Iridium veio só para sacramentar a queda retumbante na virada do século.



Desde então o que Inepar faz é sobreviver, sem nenhum recurso próprio além das máquinas e terrenos, mas sobrevivendo. Precisa recorrer ao fundo BNDESPar para conseguir honrar com as dívidas vencendo no CP. Com base no passado (e presente) como grande geradora de empregos no país e percebendo que a atual situação decorria de uma decisão gerencial incorreta – querer abraçar o mundo – o BNDESPar entra no capital social de Inepar injetando uma sobrevida para a empresa. Afinal, o papel do BNDESPar, segundo seu estatuto, é “apoiar empresas que reúnam condições de eficiência econômica, tecnológica e de gestão e, ainda, que apresentem perspectivas adequadas de retorno para o investimento, em condições e prazos compatíveis com o risco e a natureza de sua atividade”. Como tem mais que 5% o BNDES participa das AGOs da empresa, contribuindo para o bem e para o mal com o futuro da Inepar. Com o bem, além do $, trazendo experiências de outras empresas e, com o mal, engessando toda e qualquer decisão mais arriscada da empresa. Afinal, foi isso que a fez chegar aonde chegou.



Acontece que a INEPAR aos poucos começa a conseguir reverter a situação precária anterior, trazendo lucro com praticamente todas suas controladas, de IENG até, e principalmente IESA.

Quando parecia que a empresa estava começando, de forma incipiente, a melhorar, veio a crise arrebatadora e derrubou o valor da empresa novamente.



Foi uma boa hora de entrada para quem acreditava que com o desempenho operacional acontecendo, uma folga é gerada que permite que a empresa volte a mesas de negociação. Neste dia a cotação era de meros R$ 3,53 e o mês era maio de 2009.



Desde então a valorização foi forte e intensa. Veio o resultado do 2T 09 e veio mais do mesmo, um lucrinho de R$ 1,5M, tamanha era a indignação com a empresa que poucos notaram que a receita e carteira vinham numa escalada crescente. Mas foi ai que veio o resultado do 3T ’09 em conjunto com um split e uma subscrição. O mercado começou a ver um tal de nome Inepar nos boards de fatos relevantes da Bovespa e muitos se perguntaram, que empresa é essa? Nossa é ela mesmo? Alguns simplesmente olharam, gostaram e foram as compras. Outros levantaram a sobrancelha esquerda e pensaram, olha só! Olha essa carteira, olha esse crescimento de receita, tá subscrevendo?! Há, deve querer alguma coisa essa safada. Quem diria... Mas tem uma DIVIDA monstro, vou comprar só um pouquinho.. Mais alguns compraram, ai a cotação já estava nos entornos de R$ 6,50.



Daí até o final do ano, mais precisamente 18/12, as negociações com os recibos da subscrição travaram a valorização do papel. Felizes aqueles que subscreveram a R$ 4,3, pois assim que acabou esse período a empresa chegou quase nos R$ 9.



Havia um detalhe não sabido por ninguém, até então. Um detalhe que quase 8% das PNs estavam sendo devolvidas a mercado pelo BNDESPar. Entidade sem fins lucrativos do governo, que seguramente considerava que não mais precisava dele para a seqüência do funcionamento de Inepar, dos empregos na mesma, e da futura geração de impostos para a união.



Essa decisão de sair pouco vinha sendo sentida pelo mercado enquanto havia um momentum geral das ações. Porém, TODAS as small caps e depois as blue chips, começaram a ter uma retração nos volumes. Pudera, subiram tanto no racional do mercado, pouco importa se está caro ou não, mas subiu. Se subiu deve estar caro, vamos vender!



O governo, vendo a situação de diversas empresas do pais em situação complicada instituiu o Refis da Crise. Mecanismo de perdão da divida que mudou a vida de muita, e muita, empresa. Nessa altura, todo mundo esperava um enorme reflexo positivo no balanço da Inepar. Mas o que a empresa sabiamente fez? Aproveitou que teria um lucro de mais de R$ 100M em um trimestre, para fazer algumas lições de casa que nunca havia tido $ para fazer. Ajustou o valor das peças do tabuleiro, o bispo deixou de ser rei, voltou a ser bispo. Mas ainda é um bispo, e valioso no jogo. Estamos falando da Cemat. Isso frustrou a expectativa do mercado.



Acontece que, além disso, o BNDESPar seguramente foi apressado a zerar a participação pela própria Inepar para garantir seus interesses , que pediu para ele acabar as vendas até 19/05/2010, data da provável mais importante AGO da década de Inepar. O mercado fraco, junto com o prazo apertando para o BNDESPar sair fez uma bela pressão nos papeis de Inepar.



Mas ninguém que conhecia o que passava na empresa estava preocupado. Porque havia tanta coisa melhor por vir que não seriam 30% de queda que afetariam nada.



Pra começar sem o BNDESPar nas decisões, a Inepar poderia vender empresas que, apesar de rentáveis, julgue fora do seu core business. E foi isso que Inepar fez, aproveitou o momento de aquecimento do mercado elétrico para vender a participação que detinha em Cemat, em conjunto com o grupo Rede. Nessa hora, mesmo antes do anuncio, as ações do grupo rede já valorizavam loucamente. Certamente foram vendidos também, e levaram junto a participação de Inepar.



Agora a história ficou diferente para Inepar! Ela tinha caixa! E o que fez assim que chegou o dinheiro? Pra dizer a verdade, até antes dele chegar já chamando todos os proprietários de debêntures já vencidas, e não, para conversar? Ela pagou a dívida defaultada. Falou em alto e bom tom: “As debêntures serão amortizadas em uma única parcela, sobre o valor nominal devidamente corrigido, na data de seu vencimento, ou seja, em 02/05/2011.”



O turnaround estava quase completo! Pois simplesmente por não ter que pagar a divida do tamanho que estava o lucro já era o dobro. Estava livre dos debenturistas. Quem diria?!



E ai foi a vez de Inepar pregar a peça mor no mercado. O que nunca, never, jamais, alguém espera de Inepar, aquela empresa toda endividada? O pagamento de dividendos. “A vá? Inepar dividendos?” Foi a piada mais bem formulada em anos no mercado. Ai é a jogada de marketing mais fantástica já vista. Todo mundo falando de Inepar, um boca a boca em todas as corretoras. O dividendo foi pequeno, é verdade, mas fez o papel dele.



Quando todos mal esperavam, vem a noticia arrebatadora que faltava. IESA óleo e gás, jóia da coroa, que já não consegue aumentar mais sua ‘pequena’ carteira de R$ 5 bilhões, tem um novo parceiro estratégico. Macquaire, o maior fundo de private equity mundial do setor injeta capital na IESA em troco de uma parte do controle. Infelizmente aqui não há mais nada a contar, pois o turnaround morreu... Inepar não é mais a mesma, nem o nome é esse mais... Mas abre-se um novo capítulo a ser escrito, porém para uma nova empresa: IESA.



Abs

Buric

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